quinta-feira, 19 de abril de 2012

'Cultura do brasileiro é amar e valorizar a vida', diz arcebispo do RJ

'Cultura do brasileiro é amar e valorizar a vida', diz arcebispo do RJ Às vésperas de completar três anos no comando da Arquidiocese do Rio de Janeiro, d. Orani João Tempesta, de 61 anos, está envolvido, entre muitas tarefas, na organização da Jornada Mundial da Juventude, que acontece em julho de 2013 na cidade e terá a presença do papa Bento XVI. No mesmo espírito da Copa e da Olimpíada, d. Orani diz que o encontro católico deve deixar um legado para a cidade e sonha com a criação de um hospital dedicado ao tratamento de viciados em crack.


A entrevista é de Luciana Nunes Leal e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 18-04-2012.


D. Orani fala dos rumos do catolicismo, defende o diálogo entre culturas e lamenta a aprovação, pelo Supremo Tribunal Federal, do aborto de bebês anencéfalos. Para ele, é "um retrocesso" que vai além de questões religiosas. "Mesmo para quem não tem fé a vida é um dom", argumenta.


D. Orani compara o Supremo a "uma mina" para os políticos, que se livram do peso de se posicionar sobre temas delicados. "Quando o Legislativo acha que não deve decidir, o Supremo acaba decidindo. Isso é sério, porque o Legislativo representa o povo. O Supremo não", afirma.
Eis a entrevista.


Qual é o significado da vinda do papa Bento XVI ao Brasil, em um momento que a proporção de católicos no País é a mais baixa da história?

A vinda do papa está dentro de um contexto maior, que é a Jornada Mundial da Juventude. Ele vem para esse encontro, o maior evento da juventude mundo a fora. Temos a preocupação de termos aqui algumas questões sociais como consequência, como a questão do crack.

Haverá uma ação específica?


Além da conscientização, estamos tentando criar um hospital de referência no tratamento. Podemos fazer uma parceria, recuperar um hospital antigo fora de uso. A ideia é deixar um legado social. Estamos propondo que, se conseguirmos um hospital de referência, o papa inaugure o hospital e fale sobre isso. Tenho conversado com autoridades do Rio e com representantes do papa.


O senhor é a favor da internação compulsória de crianças e adolescentes?


O trabalho que a Igreja faz é muito mais de convencimento. Abordagem de menores, conversa, estar junto, acolher.


A visita do papa pode atrair os jovens para a religião católica?


Acho que a jornada é contribuição para o mundo, para o futuro. Colaborar para que os jovens pensem em um mundo de fraternidade, em que convivem nações diferentes, viver sem precisar de drogas. Esta é a preocupação, não o número de católicos. Mesmo porque, na questão numérica, o que vemos acontecer é o contrário. As paróquias estão hoje muito mais cheias, têm gente consciente. Só ano passado eu abri cinco novas paróquias e inaugurei várias igrejas, grandes e pequenas. A estatística numérica ou porcentual não reflete a participação que temos na Igreja.


A Igreja deve fazer algumas concessões a fim de receber mais fiéis?


Seria uma falsidade adaptar uma coisa tão importante para atrair a pessoa para o que não é o que Cristo ensinou. A Igreja tem toda humanidade para considerar as fragilidades, mas se preocupa em ser fiel ao Evangelho.


Como o senhor recebeu a notícia da aprovação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da aprovação do aborto dos bebês anencéfalos, na última quinta-feira?


Eu lamentei esse retrocesso do País. Porque a vida é um bem que não depende de religião nenhuma. O ser humano tem uma dignidade, não importa se ele cortou um braço, se tem uma perna a menos. É lamentável porque o Supremo acabou legislando, quando não é papel dele. Quando o Legislativo acha que não deve decidir, o Supremo acaba decidindo. Isso é sério, porque o Legislativo representa o povo. O Supremo não. O Supremo é uma indicação do presidente para julgar causas relativas à Constituição. É um momento de nós todos pensarmos que tipo de país estamos querendo fazer, que tipo de sociedade estamos encaminhando. Quando não se respeita o direito fundamental que é o direito à vida, o grande problema é que todos os outros direitos caiam por terra também. A criança não é sem cérebro. Ela tem parte do cérebro, sim. Não cabe a nós decidir sofre a morte de um inocente. Não falo nem da questão religiosa, mas da questão humana. Para a Igreja, não muda nada. Continuamos preocupados em fazer o bem, em anunciar a vida como um dom, como um bem. Mesmo para quem não tem fé a vida é um dom.


Em 2010, o aborto foi um tema recorrente na campanha eleitoral. É importante cobrar posição dos candidatos também nas eleições municipais deste ano?


O brasileiro não é favorável ao aborto. Mesmo com todas as campanhas dos meios de comunicação, das novelas, tentando mudar essa cabeça, a cultura do brasileiro em geral é amar e valorizar a vida. Como os candidatos já perceberam isso, nenhum deles defende matar a vida, matar a criança. Os candidatos não vão defender essa questão. Eles descobriram uma mina, através do Supremo. Ninguém vota no Supremo. Eles (ministros do STF) decidem, fazem as leis conforme acham e não precisa votar neles, são nomeados.


O senhor completa três anos à frente da Arquidiocese do Rio no próximo dia 10. Desde que assumiu, visitou e abençoou um bloco carnavalesco duas vezes. Em Belém, abriu as portas de uma igreja para sagração de religiosos anglicanos. Como reage às críticas ao seu "excesso de liberalismo"?

Tem os que não gostam (risos). Mas não posso perder aquilo que sou, um arcebispo católico. Creio em Jesus Cristo, tenho uma missão, amo o que faço e quero viver dessa forma. De outro lado aprendi a dialogar sem discriminar as pessoas. Temos que dialogar com as culturas também. Não podemos ter medo de falar com as pessoas, cada uma está procurando o bem a seu modo. O Rio de Janeiro tem a cultura do samba. Tem exageros de cá e de lá, mas a gente tem que dialogar, construir uma fraternidade, algo melhor para a cidade. O Brasil deve dar esse testemunho de que, na diversidade que nós temos, podemos não concordar, mas não vamos ser inimigos. As críticas nos ajudam a ver se não estamos exagerando. Acolho com carinho. Alguns têm direcionamentos um pouco xiitas, mas nos ajudam a repensar as atitudes.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cristãos negros, e não por acaso


Nos últimos 30 anos, nas Igrejas cristãs da América Latina, foi-se desenvolvendo uma nova teologia, filha das comunidades negras descendentes dos escravos africanos, que une vontade de justiça, feminismo e inculturação.

Terceira e última parte  do resumo da reportagem é de Mauro Castagnaro, publicada na revista Jesus, de dezembro de 2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto e se encontra  no portal ihu.unisinos.br


Festa de São Benedito 2011em Aparecida  
A vertente feminista adquiriu recentemente uma grande. Mena López recorda que esse filão "nasce da necessidade de produzir teologia a partir da vida comunitária e religiosa de mulheres latino-americanas negros, sejam cristãs, sejam pertencentes aos cultos afroamericanos. A teologia negra feminista se preocupa acima de tudo com a tríplice opressão – de classe, de gênero e de raça – que caracteriza a sua existência nas nossas sociedades. Nós, mulheres negras, nos confrontamos não só com o racismo e o sexismo da sociedade dominante e das suas estruturas patriarcais, mas também, de um lado, com o racismo de um movimento feminista dominado por mulheres brancas e, de outro, com o antifeminismo e o heterossexismo normativo do movimento negro, que não raramente expressa um machismo violento e exalta o super-homem. Essa teologia quer manifestar a revelação de Deus na vida das mulheres negras, partindo tanto do seu sofrimento pela discriminação e pelo racismo, quanto das suas lutas e resistências. Mesmo sem esquecer que continuam sendo vítimas da fome, das doenças e das taxas mais altas de desemprego, ela lhes resgata do papel de 'pobres', domésticas e escravas, e lhes recupera como detentoras de poder e sabedoria".

Isso ocorre também "reivindicando os seus próprios corpos como espaços sagrados de revelação, em resposta a uma sociedade que desvalorizou o corpo da mulher negra e de uma teologia que, durante séculos, o considerou como 'corpo de pecado'. O corpo é o espaço em que confluem as nossas alegrias, as nossas angústias, os medos, a fé e a esperança, em que a mulher negra experimenta o mundo, o divino e a salvação".


A essa luz, no seu trabalho de biblista, Mena López se dedicou "à pesquisa de raízes afroasiáticas na Bíblia e ao estudo da influência dos povos de origem africana (Egito, Cuch ou Etiópia, Saba) na formação da tradição judaico-cristã. Depois, ao resgate de mulheres negras presentes na Bíblia dos papéis de escrava, bruxa e sedutora, evidenciando, por exemplo, como Hagar, a serva egípcia de Abraão, é a única mulher que fala diretamente com Deus (Gn 16); Séfora, a esposa de Moisés, é a única que circuncida um bebê (Ex 4), ato que a religião israelita reservava aos homens, e precisamente o papel sacerdotal da mulher cuchita parece estar na origem da hostilidade de Miriam e de Arão contra ela (Nm 12 e Ex 18). Assim, as afrocolombianas descobriram que o cristianismo não tinha chegado a elas apenas através da colonização, mas também havia uma herança bem mais antiga".

No entanto, observa Rodrigues da Silva, "a teologia afroamericana custa para abrir espaço, porque o que provinha do povo da diáspora africana foi rotulado como sincretismo religioso". E Lima Silva vai mais longe: "Se existe a teologia negra, a teologia tradicional não é mais 'a' teologia. Ela deve renunciar a se apresentar como um 'universal' e reconhecer as suas próprias parcialidades".

No entanto, as maiores dificuldades, retoma Rodrigues da Silva, foram registradas "no campo litúrgico, porque ainda não está claro como conectar os rituais africanos de tradições diversas e o rito católico ou protestante".


Em 1981, a Congregação vaticana para os Sacramentos e o Culto Divino vetou a Missa dos Quilombos, composta por Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, e por ele celebrada em Recife nesse mesmo ano, juntamente com Dom José Maria Pires, arcebispo da Paraíba, e Dom Hélder Câmara, ordinário local.

O que desperta desconfiança, acrescenta Mena López, é também o fato de que, "enquanto os ocidentais separam o divino-espiritual, entendido como superior, do humano-corporal, considerado inferior, os afroamericanos e afroamericanas se expressam nas cerimônias com todo o corpo, na dança e com uma simbologia diferente, superando esses dualismos".

O caminho da inculturação parece ser, portanto, ainda muito longo caminho, mas no fundo resta o sonho de Dom Pires, hoje com 92 anos, "patriarca do cristianismo afroamericano", carinhosamente apelidado de "Dom Zumbi" (em homenagem ao líder da revolta negra decapitado em 1695): "Nós, negros, alimentamos a esperança de nos seja reconhecido o direito à cidadania eclesial. Estamos cada vez mais convencidos de que é possível para o negro ser discípulo de Cristo e viver na Igreja sem deixar de ser negro, sem renunciar à sua cultura, sem ter que abandonar a religião dos orixás (os ancestrais divinizados), que, como o judaísmo, poderá se deixar comprometer pela mensagem de Jesus Cristo" e ter "centenas de milhares de pequenas comunidades cristãs organizadas com base no terreiro (o espaço em que se celebra o culto do candomblé), com uma mãe de santo à frente, incorporando os valores evangélicos nas tradições africanas e mantendo uma profunda solidariedade com os mais pobres".