segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

CULTURA NEGRA E LITURGIA INCULTURADA à luz do Documento de Aparecida Conclusão


São benedito do pantanal
Definindo inculturação litúrgica 
O Concílio Vaticano II preparou o caminho para o que hoje chamamos inculturação litúrgica (SC 37-40). Tal processo deve passar primeiro por princípios gerais de adaptação. Por “adaptação litúrgica” a SC entende “a administração na liturgia de elementos tirados das culturas e das tradições que, graça a um processo de purificação, poderão servir de veículo da liturgia para a utilidade ou a necessidade de um grupo particular”.
O processo de inculturação litúrgica tem amadurecido a cada dia como experiência comunitária da fé.A busca de uma espiritualidade litúrgica inculturada capaz de alimentar as pessoas e a comunidade tem sido uma constante.                                                                                                                                                                                                          
A inculturação está no centro das preocupações no mundo e na América Latina. “Evangelizar e celebrar sem inculturar significaria reduzir o alcance da adesão a Cristo, uma vez que a cultura faz parte da identidade de um povo”. Num primeiro momento a constituição Sacrosanctum Concilium sugere que sejam adaptados os sacramentos, os sacramentais, as procissões, a língua litúrgica, a música sacra e a arte litúrgica (SC 38-39). Tais adaptações devem ser acompanhadas pelos bispos e presbíteros e não dependem de consulta à Santa Sé. Em um segundo momento (SC 40) propõe uma “adaptação mais profunda da liturgia” que depende de confirmação da Sé Apostólica.
Tanto o número 37 quanto o 40 da SC mencionam que na liturgia podem ser admitidos tradições, costumes, qualidades e dotes de espírito dos vários povos, podendo inclusive admitir elementos culturais no rito romano.A realidade pluricultural do Brasil e a abertura dada pelo Concílio Vaticano II (SC 37-40) nos impelem a buscar para a liturgia novos símbolos de esperança que sejam interpretados sem dificuldade pelo povo brasileiro.Tais símbolos já estão no meio do povo. Temos o papel de descobri-los, resgatá-los e encaixá-los onde melhor possam expressar o mistério pascal.
O documento de Puebla (31-39) e o documento de Santo Domingo (178) afirmam que na evangelização
precisamos levar em consideração as diferentes culturas. Não podemos celebrar a liturgia com os mesmos cânticos, a mesma linguagem, o mesmo ritmo e utilizando os mesmos instrumentos musicais no mundo todo, como aconteceu por séculos em que foram ignorados as etnias, as culturas e os povos. É preciso haver sim a “comunhão de diferenças compatíveis com o Evangelho” para proteger as legítimas diversidades e vigiar “para que as particularidades ajudem a unidade e de forma alguma a prejudiquem.”  Quem une em primeiro lugar é o Cristo em seu mistério de morte e ressurreição. “a inculturação é necessária para restaurar o rosto desfigurado do mundo”
(SD 13). “Com a inculturação da fé, a Igreja se enriquece com novas expressões e valores, manifestando e
celebrando cada vez melhor o mistério de Cristo.” ·.
O processo de inculturação litúrgica no Brasil deve respeitar a coexistência de diversos grupos culturais
atuando em nossas igrejas, cada um trazendo sua história que é única e diferente e como tal necessita ser
considerada. Somos o país onde a diversidade está naturalmente presente, portanto o processo de inculturação litúrgica deve incorporar na liturgia os ritos, os símbolos, expressões religiosas, música e instrumentos que ajudem a celebrar a fé (SD 248). Segundo a IV instrução para uma correta aplicação da constituição conciliar (SC 37-40) “a Liturgia da Igreja não deve ser estrangeira em nenhum país, nenhum povo, para nenhuma pessoa e, ao mesmo tempo, terá de superar todo particularismo de raça ou de nação”.43 Chupungco, 44 interpretando a SC 37-40, diz que há três etapas na adaptação litúrgica. São elas:
1. “Acomodação”: nesta fase há o interesse pelos elementos celebrativos utilizados pela assembléia
litúrgica, sem, contudo haver necessariamente a preocupação de uma adaptação cultural;
2. “Aculturação”: esta fase é de natureza cultural e pode ser descrita como um processo capaz de incorporar
na liturgia romana elementos culturais que possam substituir os do rito romano, salvaguardando não só o
significado original do Rito Romano, como também o verdadeiro sentido desses elementos culturais;
3. “Inculturação”: esta fase também é de natureza cultural e supõe a transformação do rito pré-cristão à luz da fé cristã celebrada pela liturgia romana. Isto é, um rito pré-cristão passa a ter um significado cristão. A igreja não altera o rito em si, mas dá a ele um sentido cristão para que possa exprimir o mistério pascal.







Concluindo, podemos afirmar que o louvor ao Senhor ao som dos atabaques, a oração comunitária sustentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia e os valores culturais afro-brasileiros adaptados à liturgia contribuem para uma celebração mais inculturada e propiciam em nossa vida a experiência do encontro com o Cristo morto e ressuscitado, fazendo com que nos apaixonemos cada vez mais por Ele, nos tornando assim, discípulos e discípulas missionários afro-brasileiros.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

CULTURA NEGRA E LITURGIA INCULTURADA à luz do Documento de Aparecida parte 3

Jesus assumiu profundamente sua cultura, porém não perdeu a visão crítica sobre a mesma. Confirmou e apoiou o que defendia, a vida (Jo 10,10). Tendo o Antigo Testamento como base, corrigiu e reorientou o que foi desviado e pervertido. Com suas atitudes, Jesus nos ensina que nenhuma cultura é perfeita e todas devem estar constantemente abertas à conversão e ao crescimento.
A igreja desde o início esteve aberta às culturas.Escreveu as narrativas evangélicas em língua grega e aonde chegava para o anúncio procurava incorporar no rito, no culto e na pregação, valores das diferentes culturas. Assim fizeram os apóstolos, Paulo e os Santos Padres, influenciando a teologia, a espiritualidade e a ação pastoral de praticamente todo o primeiro milênio.

A partir dos primeiros séculos do segundo milênio, a hierarquia da igreja, influenciada pela cultura européia, inicia a formação de uma cultura cristã católica, acreditando ser a portadora única da revelação e superior a todas as outras culturas.Com o processo de colonização, os povos dominados eram obrigados a negar sua própria cultura e sua religião e a aderir a esta cultura cristã católica européia. A valorização das culturas e a incorporação de seus elementos no culto visto no primeiro milênio cristão já não têm mais espaço no segundo milênio. Desaparece a inculturação e ganham espaço a aculturação e a transculturação ocasionando assim um processo de separação entre a fé e a cultura. “Para os povos não europeus, abraçar a fé significará sempre mais abrir mão da própria cultura ocidental dentro do qual é proposta a fé.” Após o Concílio Vaticano II, reaparece a preocupação com a inculturação possivelmente por influência de bispos do mundo inteiro presentes no Concílio trazendo suas realidades culturais diversificadas. A valorização das igrejas locais e continentais e a reorganização do povo de culturas oprimidas como negros e indígenas muito contribuíram para o revivamento deste processo. Tratamento especial também recebeu as mulheres, os jovens, os campesinos, os sem-terra, com interpretação própria da bíblia, da tradição e da pastoral.

O processo de evangelização inculturada exige um discernimento constante da parte da cultura que já recebeu o anúncio e daquela que ainda vai receber. Ambas são sujeito da evangelização. O evangelizador não pode renunciar à sua própria cultura, mas também não deve impor o seu modo de viver a mensagem evangélica como único e absoluto. O essencial é a mensagem e não o modo de vivê-la. Aquele ou aquela que está sendo evangelizado precisa decodificar a mensagem usando instrumentos de sua própria cultura. O processo de evangelização inculturada é conflituoso porque trata da libertação de ambas as culturas (a que é evangeliza e a que é evangelizada), contudo o resultado final dessa evangelização é a fé que sabemos não ser apenas esforço humano ou produto de um método, mas dom gratuito de Deus, respeitando a liberdade humana.
Para se iniciar o processo de inculturação é necessário fazer uma identificação antropológica e teológica da cultura a ser evangelizada. O critério é sempre o ser humano e o homem Jesus de Nazaré com sua mensagem e testemunho de vida. É preciso também identificar naquela cultura o que oprime, mata, destrói a pessoa, a
comunidade, a cultura e a natureza. Só depois dessa identificação é que passamos para o anúncio propriamente dito da Palavra e do projeto de Deus, para o seu povo. Nesta fase as pessoas já têm condições, elas mesmas, de discernir e descobrir a Boa Notícia, a novidade cristã, o dom dado por Deus àquela cultura para ser partilhado com a humanidade. Paulatinamente, homens e mulheres daquela cultura percebem que a fé em Cristo não é para ser vivida individualmente, mas em comunidade, como grupo cultural específico aberto à catolicidade. Esse processo nos leva a uma crescente inculturação da fé.


Cremos que a fé cristã deve penetrar todas as culturas para elevá-las e salvá-las, de acordo com o ideal do
evangelho. Se o processo de inculturação for encarado de forma superficial, corremos o risco de cair em um
sincretismo que confunde e mistura fé cristã e tradições culturais antropológicas.


Este texto é a 3° parte do resumo do texto de  Padre Gabriel Gonzaga que está disponível na integra para baixar no site da Pastoral na CNBB

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

CULTURA NEGRA E LITURGIA INCULTURADA à luz do Documento de Aparecida parte 2

O Brasil é caracterizado pela diversidade e pluralidade, que constituem um desafio à Igreja e à inculturação da liturgia e do Evangelho, mas podemos ter certeza que a abertura da liturgia para elementos culturais afro-brasileiros fará a Igreja de Cristo mais católica, isto é, “para todos”.
O termo “inculturação” indica um processo e como tal não está suficientemente acabado, sua definição depende da história e do tempo. A expressão tem origem na missiologia, mas deve ser usada também do ponto de vista sociológico-cultural. Trata da relação existente entre a fé cristã e as diferentes culturas. O termo é usado pelos católicos desde a década de 30, embora em textos oficiais da igreja apareça na década de 70. A inculturação não é modismo, mas uma necessidade inerente à revelação, à evangelização e à reflexão teológica, não podendo ser confundida com “aculturação” (processo de transformação provocado pela convivência de grupos humanos de culturas diferentes), “enculturação” (processo de iniciação do indivíduo à sua própria cultura), “transculturação” (o transporte de elementos culturais e imposição dos mesmos a uma outra cultura normalmente dominada) e “adaptação” (ajustamento do evangelizador e da mensagem cristã à cultura destinatária através do modo de ser, agir e tradução de textos para a língua vernácula)


 Seu objetivo é evangelizar as diferentes culturas respeitando as realidades teológicas e antropológicas das mesmas, distinguindo fé e cultura e salvaguardando a unidade e o pluralismo da igreja universal, na busca de sempre maior comunhão eclesial.Desse modo, podemos afirmar que inculturação é um processo histórico que envolve o encontro do evangelho (fé cristã) com as diferentes culturas. Esse encontro estimula novas relações entre as pessoas e Deus, originando um processo de conversão individual e comunitária cuja intenção é a vivência do evangelho sem trair o modo de ser, de atuar e de comunicar das pessoas dessa cultura que está entrando em contato com o evangelho. 
 Do ponto de vista bíblico-teológico, podemos dizer que o povo de Israel é um referencial histórico-cultural necessário para o processo de inculturação, porque foi ali que Deus se encarnou em Jesus de Nazaré (Jo 1, 1-14; Fl 2, 5-8). No entanto, não podemos absolutizar essa cultura como forma única e fixa de expressão da revelação de Deus. Toda cultura traz “as sementes do verbo” plantadas pelo Espírito Santo Jesus assumiu profundamente sua cultura, porém não perdeu a visão crítica sobre a mesma. Confirmou e apoiou o que defendia, a vida (Jo 10,10). Tendo o Antigo Testamento como base, corrigiu e reorientou o que foi desviado e pervertido. Com suas atitudes, Jesus nos ensina que nenhuma cultura é perfeita e todas devem estar constantemente abertas à conversão e ao crescimento.






Nenhuma cultura pode se sobrepor e obrigar a outra a ser como ela é. Respeitar a cultura do outro com seus costumes e tradições, sem fazer comparações é ir descobrindo os sinais da presença do Criador de todas as coisas. Embora as culturas sejam diversas, Ele é o mesmo e o Seu Espírito perpassas toda obra criada fazendo a unidade perfeita.




Este texto é a 2° parte do resumo do texto de  Padre Gabriel Gonzaga que está disponível na integra para baixar no site da Pastoral na CNBB

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

CULTURA NEGRA E LITURGIA INCULTURADA à luz do Documento de Aparecida

Para facilitar o posterior entendimento da liturgia afro, permitam-me pormenorizar o conceito de “liturgia”
proposto pela Sacrosanctum Concilium. Liturgia é:
a) Exercício = AÇÃO, obra, trabalho. De quem?
b) De Cristo sacerdote. Através de quem?
c) Do corpo de Jesus Cristo. Quem é esse corpo?
d) A Igreja, cabeça e membros; presidente e povo batizado. Esse povo tem um rosto, uma cultura, um
lugar geográfico. Como acontece essa ação, esse culto?
e) Através de um Rito composto de sinais sensíveis; símbolo da cultura do povo onde o culto, a ação está sendo celebrada;
Se quisermos ser fiéis ao Concílio Vaticano II ao celebrarmos a liturgia em meios afro-brasileiros, isto é, numa assembléia de maioria afro-descendente ou solidária à nossa causa e nossa cultura, o exercício, a  ação sacerdotal de Cristo deverá necessariamente ser celebrada considerando a música, os instrumentos, a tradição, o jeito de ser, de vestir e de viver dos povos afro-brasileiros. Isto porque a Igreja acredita que a diversidade enriquece e que é necessário incentivar a preservação da identidade étnica e a memória cultural dos afro-brasileiros. Na liturgia celebramos o Mistério Pascal de Jesus Cristo, isto é, sua morte e ressurreição. Não só recordamos os acontecimentos que nos salvaram, mas também e principalmente os atualizamos, ou seja, os tornamos presentes em nosso tempo e em nossa cultura.
A liturgia da Igreja não adaptou nossos valores, nossa música, nossos instrumentos e nosso jeito de rezar. Existe uma desconexão entre a realidade vivida pelos povos negros e a liturgia celebrada por esses povos em nossas igrejas. Os elementos culturais afro-brasileiros não foram incorporados no rito romano, mesmo existindo na Igreja a presença significativa de afrodescendentes. Tivemos que aceitar o que nos foi imposto.
A expressão da fé de acordo com nossos valores culturais muitas vezes foi confundida com sincretismo religioso e deixada de lado. Não são poucas as vezes que temos que aguentar na igreja a discriminação e o racismo expressos através de chacotas conscientes ou inconscientes.
Cientes de que a celebração da liturgia deve corresponder ao gênio e a cultura dos diferentes povos  e considerando que na liturgia existe uma parte imutável – por ser de instituição divina – e uma parte susceptível de mudança, que a Igreja tem o poder e, algumas vezes, até o dever de adaptar às culturas dos povos, podemos afirmar que os sinais e os símbolos da cultura afro-brasileira podem ser perfeitamente adaptados à missa como sugere o Concílio Vaticano II porque ajudam o povo a participar mais e melhor da celebração de forma plena, ativa, consciente, piedosa e frutuosa.

Quem já participou de uma missa com a adaptação de valores culturais afro brasileiros, com certeza percebeu como o povo bate palmas, dança, escuta, se alegra. O corpo, a mente e o coração são envolvidos. As vestes são coloridas, o ambiente é decorado a rigor, a comida é partilhada. Os cânticos quase sempre possuem refrões curtos, o que facilita a repetição e dispensa o uso de papéis para a assembleia
A experiência litúrgica feita em nossas celebrações afro-brasileiras nos tem ajudado a combater a ideologia do embranquecimento e a descobrir os sinais de páscoa que nos levam a construir um mundo novo buscando igualdade racial e justiça para todas as pessoas. A liturgia encarna-se na vida, e como afro-brasileiros vamos, guiados pelo Espírito Santo, assumindo o compromisso de Jesus Cristo, isto é, fazendo acontecer no mundo o projeto do Pai que é o Reino de Deus com vida plena para todos e todas.
Este texto é a 1° parte do resumo do texto de  Padre Gabriel Gonzaga que está disponível na integra para baixar no site da Pastoral  na parte do II seminário teológico.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Pai Nosso Afro com imagens Jesus Mafa


vídeo do Padre assessor da Pastoral afro brasileira CNBB
 link da http://www.youtube.com/user/psjoaquinadevedruna
nesse site abaixo tem mais imagens de Jesus Mafa o site está em francês ou também em inglês
http://jesusmafa.com/pageposter2.htm
"Que a força do espirito santo seja o verdadeiro estimulo para não parar caminhar!"
Paz e Bem