sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cristãos negros, e não por acaso


Nos últimos 30 anos, nas Igrejas cristãs da América Latina, foi-se desenvolvendo uma nova teologia, filha das comunidades negras descendentes dos escravos africanos, que une vontade de justiça, feminismo e inculturação.

Terceira e última parte  do resumo da reportagem é de Mauro Castagnaro, publicada na revista Jesus, de dezembro de 2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto e se encontra  no portal ihu.unisinos.br


Festa de São Benedito 2011em Aparecida  
A vertente feminista adquiriu recentemente uma grande. Mena López recorda que esse filão "nasce da necessidade de produzir teologia a partir da vida comunitária e religiosa de mulheres latino-americanas negros, sejam cristãs, sejam pertencentes aos cultos afroamericanos. A teologia negra feminista se preocupa acima de tudo com a tríplice opressão – de classe, de gênero e de raça – que caracteriza a sua existência nas nossas sociedades. Nós, mulheres negras, nos confrontamos não só com o racismo e o sexismo da sociedade dominante e das suas estruturas patriarcais, mas também, de um lado, com o racismo de um movimento feminista dominado por mulheres brancas e, de outro, com o antifeminismo e o heterossexismo normativo do movimento negro, que não raramente expressa um machismo violento e exalta o super-homem. Essa teologia quer manifestar a revelação de Deus na vida das mulheres negras, partindo tanto do seu sofrimento pela discriminação e pelo racismo, quanto das suas lutas e resistências. Mesmo sem esquecer que continuam sendo vítimas da fome, das doenças e das taxas mais altas de desemprego, ela lhes resgata do papel de 'pobres', domésticas e escravas, e lhes recupera como detentoras de poder e sabedoria".

Isso ocorre também "reivindicando os seus próprios corpos como espaços sagrados de revelação, em resposta a uma sociedade que desvalorizou o corpo da mulher negra e de uma teologia que, durante séculos, o considerou como 'corpo de pecado'. O corpo é o espaço em que confluem as nossas alegrias, as nossas angústias, os medos, a fé e a esperança, em que a mulher negra experimenta o mundo, o divino e a salvação".


A essa luz, no seu trabalho de biblista, Mena López se dedicou "à pesquisa de raízes afroasiáticas na Bíblia e ao estudo da influência dos povos de origem africana (Egito, Cuch ou Etiópia, Saba) na formação da tradição judaico-cristã. Depois, ao resgate de mulheres negras presentes na Bíblia dos papéis de escrava, bruxa e sedutora, evidenciando, por exemplo, como Hagar, a serva egípcia de Abraão, é a única mulher que fala diretamente com Deus (Gn 16); Séfora, a esposa de Moisés, é a única que circuncida um bebê (Ex 4), ato que a religião israelita reservava aos homens, e precisamente o papel sacerdotal da mulher cuchita parece estar na origem da hostilidade de Miriam e de Arão contra ela (Nm 12 e Ex 18). Assim, as afrocolombianas descobriram que o cristianismo não tinha chegado a elas apenas através da colonização, mas também havia uma herança bem mais antiga".

No entanto, observa Rodrigues da Silva, "a teologia afroamericana custa para abrir espaço, porque o que provinha do povo da diáspora africana foi rotulado como sincretismo religioso". E Lima Silva vai mais longe: "Se existe a teologia negra, a teologia tradicional não é mais 'a' teologia. Ela deve renunciar a se apresentar como um 'universal' e reconhecer as suas próprias parcialidades".

No entanto, as maiores dificuldades, retoma Rodrigues da Silva, foram registradas "no campo litúrgico, porque ainda não está claro como conectar os rituais africanos de tradições diversas e o rito católico ou protestante".


Em 1981, a Congregação vaticana para os Sacramentos e o Culto Divino vetou a Missa dos Quilombos, composta por Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, e por ele celebrada em Recife nesse mesmo ano, juntamente com Dom José Maria Pires, arcebispo da Paraíba, e Dom Hélder Câmara, ordinário local.

O que desperta desconfiança, acrescenta Mena López, é também o fato de que, "enquanto os ocidentais separam o divino-espiritual, entendido como superior, do humano-corporal, considerado inferior, os afroamericanos e afroamericanas se expressam nas cerimônias com todo o corpo, na dança e com uma simbologia diferente, superando esses dualismos".

O caminho da inculturação parece ser, portanto, ainda muito longo caminho, mas no fundo resta o sonho de Dom Pires, hoje com 92 anos, "patriarca do cristianismo afroamericano", carinhosamente apelidado de "Dom Zumbi" (em homenagem ao líder da revolta negra decapitado em 1695): "Nós, negros, alimentamos a esperança de nos seja reconhecido o direito à cidadania eclesial. Estamos cada vez mais convencidos de que é possível para o negro ser discípulo de Cristo e viver na Igreja sem deixar de ser negro, sem renunciar à sua cultura, sem ter que abandonar a religião dos orixás (os ancestrais divinizados), que, como o judaísmo, poderá se deixar comprometer pela mensagem de Jesus Cristo" e ter "centenas de milhares de pequenas comunidades cristãs organizadas com base no terreiro (o espaço em que se celebra o culto do candomblé), com uma mãe de santo à frente, incorporando os valores evangélicos nas tradições africanas e mantendo uma profunda solidariedade com os mais pobres".

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