quinta-feira, 31 de maio de 2012

HISTÓRIA NEGRA, DEUS BRANCO


Por José Steinsler
Divulgado no portal adital http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=1977


Desgarrando-se do calcanhar até o osso por não poder separar as pernas presas por grilhões e cadeias, as mulheres que davam luz a bordo dos barcos negreiros só podiam fazer duas coisas: dar alaridos ou morrer na tentativa. Assim nasceu Consolação, filha de Isabel, escrava de 14 anos que durante a travessia foi violentada por um negreiro que a possuiu sem sequer desamarrá-la.

Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho
Em uma fazenda de Ouro Preto, Consolação teve filhos que nasciam mortos ou morriam de peste. Antônio Francisco Lisboa (1730-1814), filho do negreiro Manuel Francisco Lisboa, foi o único que sobreviveu. Mas, logo que a lepra comeu-lhe as mãos, Antônio passou a se conhecido com o Aleijadinho, o escultor barroco mais importante da América no século XVIII.

Talhadas em cedro ou pedra que modelava com um gancho nas extremidades de seus braços, as poderosas esculturas monolíticas que o Aleijadinho chegou a posteridade, giram em torno de temas provocativos: O flagelo, o caminho da cruz, a crucificação e os doze apóstolos em pedra que adornam a escada do átrio do Santuário do Bom Jesus, em Congonhas do Campo.

Na cultura afro-americana podemos contar muitas vidas como a do Aleijadinho. Histórias de paixão e sofrimento silenciadas pela negra história do branco, que estampou o verbo "ultrajar" para definir o que se opõe à "pureza" de sua cor.

O dicionário segue chamando "negro" ao que pode significar "hostil", "triste", "infeliz". Inclusive o mar negro foi assim batizado pelos turcos pelas suas tempestades súbitas (de "Kara", negro, tenebroso). Ovelha negra, cena de negros, missa negra, dia negro, alma negra, mercado negro, trabalhar como um negro, ser ocioso como um negro..., o negro "rumbeiro" Johnny Ventura canta com tom de discriminação racial: "Oi pimpolho/ o negrinho é o único teu".

Negros que se vêem com os olhos do branco e se julgam com base em padrões culturais alheios. Que durante séculos se tem visto como representação do mal, do que merece condenação. Noventa por cento da população carcerária da América Latina está formada por negros, morenos, zambos, mulatos, indígenas, mestiços, invariavelmente pobres e, sobretudo, culpados.

Versifica José Hernández na Volta de Martín Fierro (1870):

"Pinta o branco negro ao diabo
E o negro, branco o pinta.

Branca a cara retinta
Não fala contra nem a favor.

Dos homens o Criador
Não fez classes distintas"

No antigo testamento, o patriarca hebreu Noé amaldiçoou aos negros através de seu filho Cam e aos amarelos através de Jaffet. E assim como nem a igreja Católica nem a anglicana protestaram ante o manejo e o tráfico de escravos, tampouco o fazem hoje quando guardam silêncio cúmplice ante o genocídio dos povos da Ásia Central. Já não haverá tempo para pedir "perdão", especialidade de João Paulo II.

Durante a celebração do primeiro Concilio Vaticano (1870), um grupo de missionários apresentou um documento em que pedia ao Papa que liberasse a raça negra da maldição que pesa sobre ela. O escritor norte-americano James Baldwin, ao fazer referência a crise em que se perdeu a fé, escreve: "Compreendi que a Bíblia já havia sido escrita pelos brancos. Sabia que para muitos cristãos eu era um descendente de Cam e que, conseqüentemente, meu destino era a escravidão".

O antigo testamento também é usado pelo fascismo judeu para justificar o extermínio do povo palestino. Neste sentido, os governantes de Tel Aviv se consideram homens tão esclarecidos e tão abertos às idéias de liberdade e tolerância como os negreiros de Burdeos e Nantes.

Mas, a sociedade é racista ou não é. Ou seja, não existem graus de racismo. Franz Fanon dizia que o racismo não é uma constante do espírito humano, mas uma disposição inscrita em um sistema determinado. Em efeito: o que diferencia o racismo branco do racismo judeu ou do racismo negro? Que valores "civilizatórios" representam os George Bush, Ariel Sharon e Colin Powell?

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