Para facilitar o posterior entendimento da liturgia afro, permitam-me pormenorizar o conceito de “liturgia”
proposto pela Sacrosanctum Concilium. Liturgia é:
a) Exercício = AÇÃO, obra, trabalho. De quem?
b) De Cristo sacerdote. Através de quem?
c) Do corpo de Jesus Cristo. Quem é esse corpo?
d) A Igreja, cabeça e membros; presidente e povo batizado. Esse povo tem um rosto, uma cultura, um
lugar geográfico. Como acontece essa ação, esse culto?
e) Através de um Rito composto de sinais sensíveis; símbolo da cultura do povo onde o culto, a ação está sendo celebrada;
Se quisermos ser fiéis ao Concílio Vaticano II ao celebrarmos a liturgia em meios afro-brasileiros, isto é, numa assembléia de maioria afro-descendente ou solidária à nossa causa e nossa cultura, o exercício, a ação sacerdotal de Cristo deverá necessariamente ser celebrada considerando a música, os instrumentos, a tradição, o jeito de ser, de vestir e de viver dos povos afro-brasileiros. Isto porque a Igreja acredita que a diversidade enriquece e que é necessário incentivar a preservação da identidade étnica e a memória cultural dos afro-brasileiros. Na liturgia celebramos o Mistério Pascal de Jesus Cristo, isto é, sua morte e ressurreição. Não só recordamos os acontecimentos que nos salvaram, mas também e principalmente os atualizamos, ou seja, os tornamos presentes em nosso tempo e em nossa cultura.
A liturgia da Igreja não adaptou nossos valores, nossa música, nossos instrumentos e nosso jeito de rezar. Existe uma desconexão entre a realidade vivida pelos povos negros e a liturgia celebrada por esses povos em nossas igrejas. Os elementos culturais afro-brasileiros não foram incorporados no rito romano, mesmo existindo na Igreja a presença significativa de afrodescendentes. Tivemos que aceitar o que nos foi imposto.A expressão da fé de acordo com nossos valores culturais muitas vezes foi confundida com sincretismo religioso e deixada de lado. Não são poucas as vezes que temos que aguentar na igreja a discriminação e o racismo expressos através de chacotas conscientes ou inconscientes.
Cientes de que a celebração da liturgia deve corresponder ao gênio e a cultura dos diferentes povos e considerando que na liturgia existe uma parte imutável – por ser de instituição divina – e uma parte susceptível de mudança, que a Igreja tem o poder e, algumas vezes, até o dever de adaptar às culturas dos povos, podemos afirmar que os sinais e os símbolos da cultura afro-brasileira podem ser perfeitamente adaptados à missa como sugere o Concílio Vaticano II porque ajudam o povo a participar mais e melhor da celebração de forma plena, ativa, consciente, piedosa e frutuosa.

Quem já participou de uma missa com a adaptação de valores culturais afro brasileiros, com certeza percebeu como o povo bate palmas, dança, escuta, se alegra. O corpo, a mente e o coração são envolvidos. As vestes são coloridas, o ambiente é decorado a rigor, a comida é partilhada. Os cânticos quase sempre possuem refrões curtos, o que facilita a repetição e dispensa o uso de papéis para a assembleia
A experiência litúrgica feita em nossas celebrações afro-brasileiras nos tem ajudado a combater a ideologia do embranquecimento e a descobrir os sinais de páscoa que nos levam a construir um mundo novo buscando igualdade racial e justiça para todas as pessoas. A liturgia encarna-se na vida, e como afro-brasileiros vamos, guiados pelo Espírito Santo, assumindo o compromisso de Jesus Cristo, isto é, fazendo acontecer no mundo o projeto do Pai que é o Reino de Deus com vida plena para todos e todas.
Este texto é a 1° parte do resumo do texto de Padre Gabriel Gonzaga que está disponível na integra para baixar no site da Pastoral na parte do II seminário teológico.
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