quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

CULTURA NEGRA E LITURGIA INCULTURADA à luz do Documento de Aparecida parte 3

Jesus assumiu profundamente sua cultura, porém não perdeu a visão crítica sobre a mesma. Confirmou e apoiou o que defendia, a vida (Jo 10,10). Tendo o Antigo Testamento como base, corrigiu e reorientou o que foi desviado e pervertido. Com suas atitudes, Jesus nos ensina que nenhuma cultura é perfeita e todas devem estar constantemente abertas à conversão e ao crescimento.
A igreja desde o início esteve aberta às culturas.Escreveu as narrativas evangélicas em língua grega e aonde chegava para o anúncio procurava incorporar no rito, no culto e na pregação, valores das diferentes culturas. Assim fizeram os apóstolos, Paulo e os Santos Padres, influenciando a teologia, a espiritualidade e a ação pastoral de praticamente todo o primeiro milênio.

A partir dos primeiros séculos do segundo milênio, a hierarquia da igreja, influenciada pela cultura européia, inicia a formação de uma cultura cristã católica, acreditando ser a portadora única da revelação e superior a todas as outras culturas.Com o processo de colonização, os povos dominados eram obrigados a negar sua própria cultura e sua religião e a aderir a esta cultura cristã católica européia. A valorização das culturas e a incorporação de seus elementos no culto visto no primeiro milênio cristão já não têm mais espaço no segundo milênio. Desaparece a inculturação e ganham espaço a aculturação e a transculturação ocasionando assim um processo de separação entre a fé e a cultura. “Para os povos não europeus, abraçar a fé significará sempre mais abrir mão da própria cultura ocidental dentro do qual é proposta a fé.” Após o Concílio Vaticano II, reaparece a preocupação com a inculturação possivelmente por influência de bispos do mundo inteiro presentes no Concílio trazendo suas realidades culturais diversificadas. A valorização das igrejas locais e continentais e a reorganização do povo de culturas oprimidas como negros e indígenas muito contribuíram para o revivamento deste processo. Tratamento especial também recebeu as mulheres, os jovens, os campesinos, os sem-terra, com interpretação própria da bíblia, da tradição e da pastoral.

O processo de evangelização inculturada exige um discernimento constante da parte da cultura que já recebeu o anúncio e daquela que ainda vai receber. Ambas são sujeito da evangelização. O evangelizador não pode renunciar à sua própria cultura, mas também não deve impor o seu modo de viver a mensagem evangélica como único e absoluto. O essencial é a mensagem e não o modo de vivê-la. Aquele ou aquela que está sendo evangelizado precisa decodificar a mensagem usando instrumentos de sua própria cultura. O processo de evangelização inculturada é conflituoso porque trata da libertação de ambas as culturas (a que é evangeliza e a que é evangelizada), contudo o resultado final dessa evangelização é a fé que sabemos não ser apenas esforço humano ou produto de um método, mas dom gratuito de Deus, respeitando a liberdade humana.
Para se iniciar o processo de inculturação é necessário fazer uma identificação antropológica e teológica da cultura a ser evangelizada. O critério é sempre o ser humano e o homem Jesus de Nazaré com sua mensagem e testemunho de vida. É preciso também identificar naquela cultura o que oprime, mata, destrói a pessoa, a
comunidade, a cultura e a natureza. Só depois dessa identificação é que passamos para o anúncio propriamente dito da Palavra e do projeto de Deus, para o seu povo. Nesta fase as pessoas já têm condições, elas mesmas, de discernir e descobrir a Boa Notícia, a novidade cristã, o dom dado por Deus àquela cultura para ser partilhado com a humanidade. Paulatinamente, homens e mulheres daquela cultura percebem que a fé em Cristo não é para ser vivida individualmente, mas em comunidade, como grupo cultural específico aberto à catolicidade. Esse processo nos leva a uma crescente inculturação da fé.


Cremos que a fé cristã deve penetrar todas as culturas para elevá-las e salvá-las, de acordo com o ideal do
evangelho. Se o processo de inculturação for encarado de forma superficial, corremos o risco de cair em um
sincretismo que confunde e mistura fé cristã e tradições culturais antropológicas.


Este texto é a 3° parte do resumo do texto de  Padre Gabriel Gonzaga que está disponível na integra para baixar no site da Pastoral na CNBB

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